quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Tributo a título póstumo!!! Nando Freire


Ver partir de modo vil e traiçoeiro, em nome da ordem natural e factual em que somos forçados a conviver e  a aceitar a vida, na sua mais pura gênese e concepção, não deixa porém qualquer ser humano indiferente, não obstante a profundidade dos laços de familiaridade ou da proximidade de convívio ou de empatia.
Ontem assisti incrédulo e triste, as exéquias fúnebres do finado Fernando Jorge Salvador Freire," Nando Freire", que conheci no esplendor da intimidade fausta, da casa de seus pais, 'a vila Alice, no recuado ano de 1975, e com quem durante bastante  tempo privei de modo intenso na companhia de outros jovens e briosos amigos à época, da então Luanda, vibrante e efervescente no clamor das tertúlias políticas, apesar do ainda registo de alguma instabilidade e incertezas na evolução do processo para a consolidação da independência Nacional. 
Mas no caso, e em particular, decorrente da nossa irreverência e jovialidade, preocupava-nos a quase inexistência de opções de oferta no plano  da recreação e entretimento, com um mínimo de qualidade e segurança, e sobretudo acrescia o facto de na altura, e no particular do círculo de amigos e conhecidos, frequentemente e subitamente partia (viajava) sempre alguém, deixando  ansiedade e inquietação e sobretudo alterando-se tudo muito rapidamente  em sede do relacionamento, sendo para o efeito o uso dos espaços privados e os recintos das casas e outros lugares exclusivos, "dir-se-ia reservados ao direito de admissão" os de maior descrição e os mais apelativos e capazes de proporcionar maior partilha dos grupos de amigos, que selecionávamos  com apurado rigor, e  se iam aproximando, naquela fase conhecida de muita incerteza, e de muitas restrições e medos, mas também, e em bom rigor, e em boa memória, de tempos puros e dourados no convívio pleno e sadio, que selou relacionamentos e onde até se forjaram, a comunhão entre alguns pares, que nalguns casos perdurou no tempo.
O Nando Freire, que Deus o tenha, tal como Eu e outros distintos jovens, fez parte do grupo de  pilotos, então  já alunos pilotos do Aéreo Club de Luanda, integrantes ao primeiro curso de pilotos particulares de aeroplanos, que resultou na fusão destes, e os outros candidatos que vieram integrar,  vindos do sector militar e de outras sensibilidades, no que ficou conhecido e reconhecido como o primeiro curso, 1975/1976, num esforço e empreendimento sem limites de coordenação e investimento, da Republica Popular de Angola.
Não obstante as dificuldades e os constantes desafios, aos homens daquele tempo, sempre norteou a ousadia e a coragem e o elevado sentido apurado de patriotismo e de missão, e de rompimento com o status quo do passado,  e assim não teria como ser diferente na TAAG de então, herdeira do enorme legado da DTA, que desta feita sempre se pautou pela renovação na continuidade, com esmero e muita competência, e exigência, apesar da exiguidade de recursos humanos e financeiros, mas focados aos mínimos detalhes, premiando a competência, o brio e o saber, e sempre em antecipação, para não ter o embuste de promover soldados rasos a generais," sem tarimba, e maturidade", e o dessabor  e o receio da politização gratuita,  em especial em áreas de delicada conjuntura e complexidade, no plano do desempenho e das responsabilidades, com raríssimas, pontuais e maculadas exceções, pois no melhor pano cai a nódoa, mas ainda assim sem afectar a credibilidade deste ingente esforço, que ainda ecoa nos tempos.
Para tanto a Empresa TAAG,  promoveu e assegurou a realização com impoluta distinção, a seu tempo, o 1 curso de Piloto comercial de aeroplanos (PCA), após a independência,  no ano de 1977, que de entre vários actuais pilotos também tive o prazer de ter como colega o Nando Freire, curso  este que em bom rigor, foi extensivo aos vários candidatos Nacionais ou residentes, desde que  se apresentassem com os requisitos e os mínimos da legislação vigente, não obstante tratarem-se ou não de trabalhadores da empresa, num alcance visionário, e de superação de quadros de modo capaz.
A TAAG durante anos não se resumiu unicamente a uma empresa de aviação, mas igualmente como uma componente de uma escola, de elevado prestígio, e gabarito, na apreciação dos fabricantes e demais operadores, nos mais variados e distintos sectores, desde as operações, link-Trainer, despacho operacional, a manutenção, aos comerciais, a engenharia, as estruturas das oficinas de ponta, equipamento eletrônico, aviônicas, torneiros mecânicos, reposição de componentes, interiores, pintura, estrutura, trens de aterragem, pneus, comunicações, Catering, logística, etc..... 
Nós estávamos efectivamente perante uma categorizada academia, e de algum modo ao longo dos tempos não fomos capazes de manter, pois aprendemos com realce a contratar e a subcontratar e não aprendemos a superar e a formar com primor o técnico Nacional, com a exigida e necessária eficiência, na recíproca dimensão do nosso crescimento potencial, numa palavra perdemos competitividade e proficiência, e eis-nos pois aqui,  diante do que se poderia caracterizar, num beco sem saída, quanto ao actual estado e diagnóstico da aviação comercial e do aproveitamento cabal e inteligente, dos seus preciosos recursos humanos.
Na longa folha de serviços do Nando Freire, cabe ainda o registo honroso do cumprimento do Serviço Nacional de Defesa, na força aérea, tendo para o efeito jurado bandeira após 6 duros meses de recruta e aplicação militar e política, na base aérea de Saurimo, em 1978.
Estou por exemplo recordado, que perante o destaque e as sinergias no relacionamento com o comandante militar da Base, um grupo de recrutas foi selecionado para integrar e coordenar a comissão de festas de encerramento do curso, cujas actividades seriam abertas a sociedade civil de Saurimo, tendo no caso sido concedida dispensa e  autorização para  nos deslocarmos  a Luanda, com a garantia de organizar patrocínios, que incluíam bebidas, trofeus/taças, alguns donativos, etc. 
Tendo por base a praia de influência, e a capacidade de angariar receitas e a faculdade de obter os itens necessários ao bom sucesso da efeméride de encerramento, e tendo como nota prévia à condição sem dispêndio para a unidade militar, foram então dispensados os recrutas, a saber, Nando Freire, Mario Duprett, Sérgio Setas, Oswaldo Mendes, HERNANI, que uma vez em Luanda e sob restrita situação de dispensa militar, reuniram os apoios e a logística com sucesso, tendo sido oportunamente encaminhada à Saurimo, como previsto para satisfação  do comando militar da base, e enorme crédito do grupo.
No entanto, tivemos um enorme percalço, pois apesar da nossa estreita coordenação de grupo, cada membro tinha uma tarefa específica, o Nando Freire ficou com a tarefa da TAAG, para assegurar a facilidade  de transporte das mercadorias sem dispêndio e com prontidão, o Setas com as taças/trofeus que seriam doadas pelo tio da firma Bordalo Pinheiro, eu por exemplo assegurei todas as bebidas, através do grande acesso que possuía na Cuca e na Nocal, que seriam pagas pelo meu pai, e por aí adiante, no entanto como dizia, depois de 2/3 dias de estadia em Luanda e durante o fim de semana,  o Setas, desertava através de uma fuga estonteante num barco a vela, rumo a Portugal.
 O resto do grupo teve alguns amargos de boca, pois as autoridades naturalmente foram ríspidas nos interrogatórios, pois suspeitavam da nossa conivência, mas felizmente tudo ficou ultrapassado  e nós podemos com normalidade regressar a Saurimo e participar no encerramento e sermos  graduados a Sub-Tenente, 1 grau na escala de oficiais.
Com o Nando Freire, estive igualmente noutros cenários, na TAAG, em que voamos variadíssimas  vezes na mesma tripulação, no Fokker F-27, B-737, B-707, estou inclusive a lembrar-me do curso de qualificação para o B727 em Miami (EUA), durante cerca de 3/4 meses, e do tempo na Taag Charter , mais recentemente, e uma vez mais na TAAG, em que o admitimos  como comandante de B727, juntamente com o comandante Rui Simões. 
Em suma e no meu entendimento e no estrito plano profissional, tenho as maiores referências, aliás como se diz na gíria esta é gente de primeira água, formada e forjada, a passo e com muito estudo, exigência e aplicação, em que desde muito terna idade, cresceu num ambiente familiar onde se respirava aviação, e já na época,  até nas idas ao cinema, e noutros encontros o tema que sempre ocupava destaque eram os aviões, lembrando frequentemente os ídolos  do nosso imaginário da aviação comercial, discutindo o estudo e a leitura das matérias, a descortinar no futuro, desde os de instrumentos, e o quebra-cabeças dos QDM's e QRD's, orientação espacial, codigo morse, meteorologia, tipos de aviões, enfim numa concorrência muito pragmática e voltada ao conhecimento sem limites.

O que fica patente seguramente,  é aquilo que de algum modo nos poderia inquietar, pois o Nando Freire, foi merecidamente um exímio comandante de mão cheia, oriundo da nossa orgulhosa escola, (TAAG) com siklls refinados no handling e no manuseio de voo das aeronaves, mas igualmente e com uma exaustiva competência  e cultura geral( back ground), na esteira das antigas enciclopédias vivas, que representaram muitos dos nossos mestres( Jaime Sampaio, Rui Claro, Artur Pestana, Carlos Lima, só para destacar alguns ). 
Aqui chegados e como é óbvio, ninguém jamais poderá ser particularmente apontado(culpado) na sequência desta nossa perda colectiva de valores e que ostensivamente ofusca as nossas estrelas, no ímpeto recente da devastadora maledicência e de novos interesses instalados, quando deveríamos convergir  na busca constante pelo respeito e no esforço da valorização, enquadramento e responsabilização dos Angolanos.
Todavia seria primordial a almejada transmissão recorrente e sistemática do know-how, e que hoje com estrema preocupação e alarme, não conhece ainda o  total ênfase, face ao papel e ausência nuclear do conhecimento e das faculdades, que implicam o fraco domínio, entretanto  já conotado como transversal da língua portuguesa, e as suas consequências no plano da habilidade do discernimento, na interpretação e coordenação motora, para melhor interagir no momento da ação dos voos , constituindo-se igualmente e sem hesitação, numa barreira que exige uma reflexão bastante científica, acadêmica  e responsável.

O comandante Freire, partiu, e nada nem ninguém o trará de volta, para o convívio da sua família, mas poderíamos sabe Deus, aprender a valorizar o que temos enquanto as estrelas cintilam, pois há que convir que no plano da perspectiva colectiva, e quem sabe aqui provavelmente empurrados pela inveja selvagem e alguma malícia e pela falta de cultura de empresa,  pois neste particular uns nunca a tiveram e outros numa sensação fugaz e  de realização absoluta, e ou, em troca de relativos benefícios, foram na pratica perdendo, pois que em  retrospectiva  se percebe com alguma amargura, que este comandante afável,  e de reconhecidos créditos e pergaminhos, apesar de se ter batido, viu-se postergado da sua actividade na empresa,(TAAG) e como em  tudo,  convivia com alguma tristeza e frustração natural,  depois de tudo quanto foi capaz de dar e emprestar no engrandecimento da TAAG,  que em justiça perfeita sentia com pulsar e muita responsabilidade, e que muito se empolgava, mas que entretanto, e perante a constatação nos dias de Hoje, a empresa nesta nova faceta,  e sem critério passou a rejeitar os seus melhores de sempre, desde que questionassem praticas mesmo que em razão de normas, ou que a despeito demonstrassem algum caracter, diferente do arreigado e bastante impregnado espírito de grupo, que corrói e que em boa verdade e bem na intimidade, apesar da postura e da máscara dos diferentes mecanismos de defesa, e que sobretudo agora diante a erosão, com o factor (crise), pressente-se de momento, que ninguém se sente suficientemente confortável, pelo que urge o benéfico do chamamento e a capacidade da construção de pontes no sentido de se ultrapassar, e se vencer as barreiras da indignação, no bom nome do reconhecimento e recuperação, deste patrimônio colectivo dos profissionais Angolanos.
Os grandes homens nunca morrem, mas suscitam aos que ficam interpelações e desafios, pois que assim seja, e que a memória do Nando Freire, permita um novo recomeço e a aceitação pacífica  de uma mudança de paradigma e quem sabe um novo chip nas nossas mentes, e um debate desapaixonado sobre aquilo que ainda se poderá fazer, para resgate da nossa última paixão, com fervor "a aviação", que ao que parece vive momentos conturbados, e como tudo na vida, mais vale tarde do que nunca!
 Bem haja a todos, e honra e glória ao Nando Freire, e que repouse nos anais da aviação angolana! 
Que a sua alma viva em paz.
                                       

                                                          Oswaldo Mendes 

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